Segundo o Paradigma Luz, de Borges (1994), “A Construção do Ser e do Saber”, é de bom tom olhar para o antigo para entender e lidar com o novo, com a atual necessidade do aqui e agora. Mas não apenas olhar, ver, ouvir e escutar o que já existe; nosso desafio é garimpar o que há de mais valioso e valoroso nesse patrimônio cultural, adaptando, atualizando ou até ressignificando. Devemos integrar a temporalidade do passado, presente e futuro em uma única dimensão, onde processo e produto, acerto e erro, a lógica da ciência e os conflitos da assistematização para a sistematização, e a garantia da informação para a formação e aprendizado do sujeito estejam todos imbricados.
Convido você, leitor, a entrar comigo em um túnel do tempo para visualizar um fio que vou pinçar desse grande novelo. Vamos partir dos anos 1960, atravessar o mundo VUCA e aterrissar no mundo BANI pós-COVID-19.
Para aquecer a reflexão, deixo algumas questões que borbulham em minha mente neste momento:
A análise parte da dimensão sociocultural, o chamado “espaço 2” – a realidade externa –, como aponta Borges em seu paradigma transdisciplinar. Dos anos rebeldes (os intensos anos 1960) até o mundo BANI pós-COVID-19, muito mudou.
Estamos falando de uma década marcada por avanços na ciência e tecnologia, esportes, comunicação, cultura, artes, religião e, especialmente, na política nacional e internacional. Alguns marcos desse período incluem:
Esses avanços científicos e culturais foram suficientes para pavimentar o caminho do mundo que chamamos de VUCA – Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo. Esse termo, cunhado pelo exército dos EUA nos anos 1990, pós-Guerra Fria, descrevia a necessidade de criar planos de contingência para cenários imprevisíveis.
Antes de abordar o mundo VUCA, quero destacar as artes. Em 1968, Stanley Kubrick lançou o filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, mostrando o olhar futurista que já existia em nossa humanidade.
No início deste artigo, menciono um trecho da música de Viva Gente, grupo inspirado no movimento jovem alemão Sing Out Deutschland. O lema desse movimento – honestidade, pureza, altruísmo e amor – é uma vitamina preciosa para lidar com este novo normal.
Se olharmos para trás, o mundo VUCA já estava sendo silenciosamente tecido. Entre 1940 e 1990, o ser humano, em sua filogênese, acessou capacidades reais, proximais e potenciais. Na década de 1990, começou a estudar o cérebro com maior profundidade, ampliando a consciência sobre o mundo externo e interno.
Em 2020, testemunhamos a evolução do mundo VUCA para o mundo BANI (Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible), conceito criado pelo antropólogo Jamais Cascio. Esse modelo reflete um mundo frágil, ansioso, não linear e incompreensível.
Nesse contexto, o coaching se apresenta como uma metodologia de intervenção eficaz, especialmente em sua modalidade coletiva – “de um para muitos” –, ajudando a preparar as pessoas para cenários adversos.
O mundo BANI exige habilidades comportamentais como:
As 8 competências ICF também são ferramentas valiosas, funcionando como um padrão de interação tanto no âmbito pessoal quanto no profissional. Cada uma delas desempenha um papel essencial no desenvolvimento de indivíduos, grupos e equipes.
Por exemplo:
Essas competências criam um espaço legítimo de aprendizado e desenvolvimento, facilitando o crescimento do cliente e promovendo soluções eficazes.
Se você, como coach, compreende seu lugar no mundo, já demonstra uma consciência transformadora. As 8 competências ICF, sem dúvida, são um GPS vivencial e relacional para quem busca atuar com ética, autenticidade e verdade.
Lembre-se: o grupo está dentro de cada Eu. Somos o resultado da interação entre dois – um “Eu” mais outro “Eu” gera um terceiro, um “inédito Eu”. Até nossos neurônios operam em conexão, mostrando que o espaço do Nós reside dentro do Eu.
Vamos nos inspirar na filosofia cabo-verdiana Djunta-Mô – “juntos somos mais fortes”. Está disposto a dançar com a multiplicidade dos Eus?
Referências Bibliográficas:
Dulce Soares é Psicóloga no Brasil e em Portugal.
Mestra em Educação, especialista em Psicopedagogia, Psicanálise, Grupos Operativos e Psicologia do Desporto. Trabalha com Desenvolvimento humano há 32 anos, acredita fortemente que o Espaço do Nós pode ser tecido por cada Eu, formando uma Rede de pessoas e profissionais que aprendem e entendam de uma vez por todas que para o Outro você também é o Outro numa verdadeira “Dança de Eus.”