“Um dia ele chega tão diferente do seu jeito
sempre de chegar olhou-a de um jeito mais
quente do que sempre costumava olhar (…)”
Valsinha de Chico Buarque
Se todos somos os Outros de alguém, vale repensar a máxima do livro O Menino Maluquinho, de Ziraldo, em que o protagonista descobre, aos 10 anos, que para o Outro você também é o Outro. Então, quem será o Eu?
Para a filosofia Ubuntu: o Eu somos Nós. Essa tribo africana acredita que ser humano significa: “Ser pelo meio dos Outros.” Eu pergunto a você, leitor: qual será a relação entre a responsabilidade social e essa concepção que desafia o estilo de vida da nossa sociedade atual?
Antes de responder, vamos começar definindo os termos: o que é ser socialmente responsável?
Uma pessoa física socialmente responsável significa não restringir-se apenas ao cumprimento de todas as obrigações legais. Implica ir além, investindo mais em capital humano, no meio ambiente e nas relações com outras partes interessadas e comunidades locais. Esse “ir além” significa que o Eu pode fazer mais pelo Outro, independentemente de instituições ou mesmo do que o poder público venha a realizar.
Sabe a composição de Chico Buarque, A Valsinha, que aparece no topo deste artigo?
“Um dia ele chegou diferente do seu jeito sempre de chegar. Olhou-a de um jeito mais quente do que sempre costumava olhar (…)”
Aqui, peço licença ao compositor para dar um novo significado à palavra quente. Atribuo-lhe o sentido de aconchego: um olhar quente, que nos vê de verdade. Essa ideia ressoa em outra tribo africana, a Zulu, relembrada por Susan Davis, psicóloga sul-africana, com o conceito de Sawubona. Sawubona significa: “Eu te vejo, e ao te ver, eu te trago à existência.”
É justamente nesse modus operandi virtuoso que percebo a relação entre responsabilidade social e a filosofia Ubuntu, reforçando que todos somos os Outros de alguém.
Vou partilhar com vocês dois projetos dos quais tive o privilégio de participar recentemente, vivenciando essa forma de pensar.
Projeto 1: Rede Solidária
O primeiro projeto começou em março de 2020, no início da pandemia de COVID-19. O mundo estava atônito diante da crise sanitária global. Países fecharam fronteiras, empresas, comércios – tudo! A ONU recomendou medidas preventivas como o distanciamento social, o uso de máscaras e a constante higienização das mãos. Era uma forma de nos proteger.
O mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo) manifestava-se plenamente. A atmosfera estava tensa, e surgiam muitas perguntas: Como vai ser? A economia vai parar? Veremos o mundo quebrar? O que será do amanhã?
Foi nesse momento que lembrei de Gandhi, do meu papel social e do meu propósito no mundo: ser um farol da responsabilidade social. Comunguei com a concepção africana de que “o Eu somos Nós.”
Assim nasceu o projeto Rede Solidária. Ele foi pensado para oferecer apoio psicológico a quem precisasse, além de criar um espaço de ação e reflexão coletiva. Promovemos trocas humanas e testemunhamos, ao longo de três meses, como todos precisávamos estar juntos, conversar e entender essa nova realidade.
O projeto contou com o apoio de uma pequena empresa de tecnologia da informação e de 15 profissionais da educação e da saúde, amigos comprometidos com o próximo. Entre março e junho de 2020, mais de 500 pessoas participaram da Rede Solidária. Isso mostrou, mais uma vez, que para começar a fazer algo por alguém e por si mesmo, basta levantar-se, abrir a porta e interagir com o mundo.
Recomendo que você assista ao vídeo Farol da Responsabilidade no YouTube. Escrito por Charlie Short e produzido por Ming Hsiung, ele inspira a (re)ativar essa dinâmica dentro de nós, como fazíamos quando crianças. Afinal, nessa fase, vibramos na frequência da filosofia Ubuntu: o Eu somos Nós!
Projeto 2: Erguer Cabo Verde
A segunda oportunidade foi participar, como supervisora de coaches (mais de 150 profissionais), do projeto social Erguer Cabo Verde. Essa iniciativa foi liderada pela coach profissional cabo-verdiana Rosa Moniz, com apoio da ICF Global, ICF Portugal, ICF Brasil, além de coaches de várias nacionalidades e da Escola de Negócios e Governação da Universidade de Cabo Verde.
O objetivo era oferecer, gratuitamente, recursos inspiradores para líderes e empreendedores cabo-verdianos, ajudando a reerguer o país no pós-COVID-19. O projeto contou também com o alto patrocínio do Presidente da República de Cabo Verde.
Nesse contexto, o conceito “doar a quem doa” se destacou. Supervisores, coaches e clientes vivenciaram a essência de que todos somos os Outros de alguém.
A supervisão foi essencial. Permitiu-nos ter uma visão super dos clientes, dos coaches, das intervenções e do contexto. Essa prática buscava um espaço sagrado de pura aprendizagem, promovendo diálogo, reflexão e desenvolvimento pessoal.
“Quem sou como pessoa se reflete em quem sou como coach.” Essa frase, da coach francesa Christine Le Moine, resume bem o impacto desses projetos. Participar de iniciativas de responsabilidade social é gratificante porque, enquanto contribuímos para o desenvolvimento de outros, crescemos também.
Para concluir, quero registrar que todos somos os Outros de alguém. E cada ser humano é o nosso Outro Significativo – quer reconheça ou não. Essa é uma das poucas certezas que posso deixar.
Com estima,
Dulce Soares
Dulce Soares é Psicóloga no Brasil e em Portugal.
Mestra em Educação, especialista em Psicopedagogia, Psicanálise, Grupos Operativos e Psicologia do Desporto. Trabalha com Desenvolvimento humano há 32 anos, acredita fortemente que o Espaço do Nós pode ser tecido por cada Eu, formando uma Rede de pessoas e profissionais que aprendem e entendam de uma vez por todas que para o Outro você também é o Outro numa verdadeira “Dança de Eus.”